segunda-feira, julho 27, 2015

"Sede" de sangue...

Tenho ficado muito triste por uma constatação que eu já havia feito, mas que somente agora "a ficha caiu".

Muitos de nós, cristãos, temos uma grande dificuldade em entender e nos apoiar uns aos outros. Alguns de nós estamos sempre prontos a levantar o dedo em riste quando algum "irmão" ou "irmã" cai em pecado. Talvez por isso tantos apostatem reclamando da falta de amor e apoio por parte dos "irmãos". Visite um ex-Adventista e você verá que esta é a maior queixa que eles apresentam.

Quantas vezes já presenciei Comissões que se reúnem tão-somente para disciplinar membros, enquanto que o Manual da Igreja dá outra gama de finalidades para tais reuniões.

A conclusão a que chego é que ainda não nos desvencilhamos do legalismo que no passado foi tão fortemente arraigado no Movimento Adventista, e que nos deu como herança esta tremenda dificuldade em olhar para as pessoas e ver nelas candidatas ao Reino de Deus, apesar de suas falhas. É claro que nem todas as reuniões de Comissão no qual são tratados assuntos de disciplina eclesiástica podem ser rotuladas como "carnificina". Existem líderes que estão realmente preocupados em resgatar a alma pecadora, ao mesmo tempo em que não querem ver o rebanho todo se perder por falta de uma mão mais firme, quando for necessário. A busca do equilíbrio nesses dois pontos é o fator-chave.

Porém, percebo que alguns de nós se sentem satisfeitos apenas quando vemos o pecador no chão, humilhado, destroçado. Enquanto não vemos a pessoa pagando humilhada pelos erros cometidos em momentos de fraqueza (que somente o Senhor pode totalmente compreender e consolar) não ficamos satisfeitos.

É claro que não sou contra a disciplina eclesiástica.Mas acredito que ela só deve ser aplicada após seguir-se a orientação bíblica (cf. Mateus 18) e o Manual da Igreja, e em casos muito particulares, nos quais o pecador não tenha demonstrado provas de arrependimento, ou que a vergonha trazida sobre o nome da Igreja, externamente, seja de grande proporção.

Desde o Antigo Testamento, com suas histórias que muitas vezes parecem demonstrar um "Deus" irado e implacável, vemos grandes demonstrações de Sua infinita bondade e misericórdia para com pessoas que erraram, caíram... mas não foram humilhadas pelo Senhor.

- Manassés (2Crôn. 33) - já leu sobre a história deste rei? Se não, faça isto hoje. Mesmo após seus erros, Deus ainda o colocou no trono real.
- Davi (Salmo 51) - Deus o perdoou, apesar de ele ter sofrido amargas consequências do seu erro... e ele também voltou ao trono.
- Sansão (Juízes 13-16) - que exemplo da benevolência e paciência divinas!

Mas é mesmo no Novo Testamento que vemos o amor de Deus revelado de forma completa na vida e obra do Senhor Jesus Cristo.

- A mulher adúltera (João 8) - alguns de nós seriam hipócritas o suficiente para terem jogado aquela pedra...
- Pedro (João 21) - mesmo sendo traído por um dos Seus maiores amigos, Jesus entendeu o lado humano do apóstolo e soube dar-lhe uma segunda chance.
- Judas Iscariotes (João 13) - até os pés deste traidor Jesus lavou e cuidou. Seria uma última tentativa de redimi-lo e trazê-lo de volta ao rebanho?!
- Saulo de Tarso (Atos 9) - esta é a minha inspiração diária, pois Deus não abandonou Saulo (e você lembra que as pessoas da Igreja não acreditaram muito no arrependimento dele) e muito menos a Paulo, mesmo quando ele parecia estar tão distante do Senhor (cf. Rom. 7).

Vejo que alguns gostam de se apoiar na defesa do "bom nome da Igreja" para atirar seus "irmãos" e "irmãs" às feras. Tais pessoas aparentam muita santidade pessoal e zelo pela obra do Senhor, mas esquecem que para Deus o mais importante são as pessoas.

Interessante que em muitos casos não foi o transgressor que provocou o "escândalo" ou a "vergonha" sobre a Igreja, mas exatamente aqueles que assumem a função de "propagadores de boatos" (para não dizer "fofoqueiros"). E a Bíblia é clara contra tais pessoas:

"O mexeriqueiro descobre o segredo, mas o fiel de espírito o encobre" (Prov. 11:13)
"O que encobre a transgressão adquire amor, mas o que traz o assunto à baila separa os maiores amigos" (Prov. 17:9)
"O mexeriqueiro revela o segredo; portanto, não te metas com quem muito abre os lábios" (Prov. 20:19)

Veja que os textos acima colocam a culpa do "escândalo" também sobre as costas daqueles que divulgam o erro do irmão. Ou seja, o pecado pode ser cometido em secreto, e não trazer publicidade negativa sobre a Igreja. Mas se outro fica sabendo e se "encarrega" de divulgar o erro, com o objetivo egoísta de expor o pecador arrependido, então sobre este "mexeriqueiro" também recai a desaprovação divina.

Nossa tendência natural (e a Psicologia explica isso) é apontar para os outros em uma tentativa de "desviar" a atenção para nossos próprios erros. Ou seja, aquele que considera "leproso" o irmão que caiu em adultério, porque ele mesmo se considera com uma fidelidade conjugal inflexível, pode não perceber que o egoísmo (que segundo o Espírito de Profecia é o "título" de uma infinidade de pecados) é tão presente em sua vida quanto na do outro, porém revela-se de forma mais "aceitável" (no trânsito, por exemplo).

Você já viu alguém ser disciplinado por ser egoísta? Ou orgulhoso(a)? Ou vaidoso(a)? Ou por furar uma fila de banco? Ou por não devolver um troco recebido erradamente no supermercado? Ou por deixar de ir ao culto para ficar assistindo à partida do seu time do coração, ou ao último capítulo da novela preferida? Ou por gastar R$ 5.000,00 na compra de um equipamento de som novo para seu carro, mas não querer colaborar com R$ 2,00 para as Dorcas? Ou por não respeitar faixas de pedestres e estacionamento de idosos?

Não... não vemos!

Por esta razão, a Ética é o ramo da Teologia mais difícil de ser vivida... e entendida.É muito fácil decorar todos os versos bíblicos que falem sobre o sábado... mas se preocupar se o irmão que está sentado do nosso lado na Escola Sabatina terá o que almoçar após o culto, não nos interessa... Não é mesmo?!

Da próxima vez que você fizer parte de uma Comissão que analise a disciplina de um "irmão" ou uma "irmã" na fé, antes de levantar sua mão condenatória, procure a pessoa, converse com ela, dê um telefonema de apoio, ore por ela, empreste seu ombro para ela chorar... e somente então ocupe a posição de juiz - é assim que Jesus faz com a gente.

Está aberto o debate...

7 comentários:

Andreia disse...
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Anônimo disse...

olá Gilson.
entendo o que vc quiz dizer com "sede de sangue" e concordo plenamnete que, quando formos julgar alguém deveríamos olhar para nossos próprios erros. Mas Deus outorga pessoas para tomorem decisões na igreja, "td que desligares e ligares na terra será assim no céu". E ainda inspirou/iluminou um Manual par a Igreja, o qual é mencionado no texto por vc.
O que me fez comentar aki é ofato de parecer, no que vc menciona, que não deveria existir disciplina e/ou remoção no que se refere ao "Pecador Arrempendo". O que faz descordar pois como vamos medir o grau de arrependimento das pessoas, sendo que só Deus conheceeo o coração/pensamento. Agindo assim daríamos margem pra outros membros pecassem e fingissem arrependimento.
Outra coisa que gostaria de ressaltar é que quando somos disciplinados ou removidos não estamos pagando o nosso pecado diante de Deus, pois isto vai contra os princípios do perdão de Deus, mas estamos "pagando" (dando exemplo) para o outro membro da igreja.
sem mais para o momento.
um abraço em cristo.
bruno amon
iasd de viana-es

Gilson Medeiros disse...

Oi.
Como não tenho como responder aos comentários, aqueles que desejarem podem enviar uma cópia diretamente para meu e-mail.
gilson.medeiros@oi.com.br

Gilson Medeiros disse...

Caro Bruno, como deixei claro no texto eu NÃO SOU CONTRA a disciplina eclesiástica, mas acho que ela é muito mal utilizada na maioria dos casos, pois coloca o pecador em uma situação de humilhação diante da Igreja em casos em que tal vexame poderia perfeitamente ser evitado.
É claro que temos que ser modelo para o mundo, mas isso significa que somos perfeitos? Todos somos passíveis de errar... o que estou querendo despertar com o texto (e acho que estou conseguindo) e fazer com que pratiquemos mais a regra áurea: "trate os outros como gostaria de ser tratado por eles...".
Disciplina, sim...
Humilhação, não!

L4W disse...

Realmente pr., há algum tempo tenho visto e até presenciado o que o sr. comentou neste artigo. Cheguei a dizer pra minha mãe que eu muitas vezes não queria estar na direção da igreja só pra não ter que saber de certas coisas, nem ouvir, nem fazer, de tão ruim que é ver o que acontece por trás, nos bastidores... infelizmente a sede de sangue é grande, e é impressionante como Satanás usa seus anjos para mover pessoas talentosíssimas e preciosas para a Obra de Deus, afim de que literalmente DESTRUAM vidas e Igrejas inteiras. Zelo pela Igreja, pelo nome de Deus, sim, mas MASSACRE ao modo dos fariseus hipócritas e legalistas não tá certo, nunca vai estar. ótimo artigo.

Lidia Braga
www.sosliderja.com
Moderadora CDJA

Anônimo disse...

Prof. Gilson,

Você usou o título correto em sua postagem sobre a disciplina eclesiástica.

Num primeiro momento parece manchete de jornais sensacionalistas, mas lendo o conteúdo chegaremos à conclusão que tudo que você escreveu é a mais pura verdade.

Não sei como Deus encara tudo isso.

Há pseudolideres que se "acham" melhores e mais santos que os liderados, e por isso julgam e condenam àqueles que por ou outra razão cometem algum deslize em sua vida.

Também não sou contra a disciplina, porém é preciso ser mais criterioso nas decisões, pois muitas injustiças se tem cometido.

O maior exemplo a ser seguido vem do próprio Senhor Jesus.

"Quem não tiver erros (pecados) que atire a primeira pedra".

E no passado (A T ) temos inúmeros exemplos de personagens bíblicos que cometeram as maiores atrocidades, entretanto arrependeram-se e foram aceitos por Deus, e considerados como se nunca houvessem pecado (DAVI, por exemplo).

Infelizmente o que vemos na maioria das igrejas é uma verdadeira execração.

Os membros faltosos são considerados verdadeiros leprosos, ou seja, todos se distanciam e não querem contatos.

Não sei se estou correto em pensar assim: " Os maiores culpados dessa situação toda são os pastores, que não teem postura de verdadeiro amor pelas ovelhas, e por conseguinte exercem muita influência aos demais lideres."

Que Deus abençõe o seu trabalho.

Continue trazendo mensagens desse tipo.

Um abraço.

Marcos

A.K.R disse...

Excelente texto! Dessa vez não farei um comentário extenso sobre o texto. Apenas quero dizer que quem leu e compreendeu o texto, com certeza foram tocadas. Pessoas com o perfil mencionado no texto tem não somente entre os adventistas, mas em outras igrejas também. Há pessoas que se alegram por ver o pecador humilhado, pagando pelos erros, infelizmente. Bom seria todos terem sua visão, Pr Medeiros! Deus o abençoe.

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