segunda-feira, agosto 22, 2016

O Adventista e a Política no Brasil

Já iniciamos no Brasil uma nova campanha eleitoral. Este  ano teremos eleições para Prefeitos e Vereadores.

Alguns Adventistas serão candidatos e pedirão nossos votos. Outros candidatos (não-Adventistas) farão o mesmo.

Então, uma pergunta volta à tona: "Até onde um Adventista deve [e pode] se envolver na disputa política?".

Frequentemente surgem perguntas de irmãos sobre esta questão. Alguns advogam que não há problema em que um Adventista se candidate, ou que os membros tomem parte ativa na militância partidária; já, outros, acreditam que nenhum envolvimento com a campanha eleitoral, seja como candidato, cabo eleitoral, militante, ou mesmo como eleitor, deva fazer parte de nossa vida. 


E agora? 
Que caminho tomar? 
O que a Bíblia e o Espírito de Profecia falam sobre este tema?
Base Teológica

O eminente Teólogo brasileiro, Dr. Alberto Timm escreveu há algum tempo um artigo sobre esta questão, com o título de "Os Adventistas e a Política". Neste estudo, nosso brilhante erudito da Palavra faz uma análise sobre a participação de personagens políticos na vida do povo de Deus, especialmente nos tempos do AT. Em seguida, o Pr. Timm reflete sobre as peculiaridades do estilo de vida e da teologia Adventista, e como devemos harmonizar isso com a questão da Política. Sugiro que você dê uma lida atenta no estudo, que está na Revista Ministério, de maio/junho de 2006 (seu pastor deve ter).

Temos também à disposição, outro excelente artigo do Dr. Bert Beach, então diretor de relações interdenominacionais da Associação Geral dos Adventistas, cujo título é "O Cristão e a Política".


Por fim, há a declaração de princípio no site da Associação Geral, também com o título "Os Adventistas e a Política".

Espírito de Profecia

Nas vezes em que Ellen White escreveu algo sobre o tema da Política, ela pareceu desaconselhar a participação dos Adventistas com esta temática.

“O princípio da política é daqueles que levarão, com certeza, a dificuldades. Aquele que considera o favor dos homens mais desejável que o de Deus, cairá na tentação de sacrificar o princípio pelo ganho e consideração do mundo. Assim se sacrifica de contínuo a fidelidade a Deus. A verdade, a verdade de Deus, deve ser nutrida na alma e mantida na força do Céu, do contrário o poder de Satanás vo-la arrebatará” – CPPE, pág. 485-6.

“A festa [na casa de Mateus] foi oferecida em honra de Jesus, e Este não hesitou em aceitar a gentileza. Bem sabia que isso daria motivo de escândalo ao partido dos fariseus, comprometendo-O também aos olhos do povo. Nenhuma questão de política, entretanto, podia influenciar-Lhe os movimentos. Para Ele, as distinções exteriores não tinham nenhum valor. O que Lhe falava ao coração era a sede da alma pela água da vida” – ODTN, pág. 274.

“A corrupção política está destruindo o amor à justiça e a consideração para com a verdade; e mesmo na livre América do Norte, governantes e legisladores, a fim de conseguir o favor do público, cederão ao pedido popular de uma lei que imponha a observância do domingo” – Ev. Finais, pág. 129.

“O Senhor deseja que todos os portadores da mensagem para estes últimos dias compreendam que há grande diferença entre os que professam a religião, mas não são praticantes da Palavra, e os filhos de Deus, que são santificados pela verdade e têm aquela fé que atua pelo amor e purifica a alma. O Senhor refere-Se aos que pretendem crer na verdade para este tempo, os quais não discernem, porém, qualquer incoerência em tomarem parte na política, misturando-se com as pessoas violentas destes últimos dias, como os circuncisos que se misturam com os incircuncisos, e declara que destruirá ambas as classes juntamente, sem distinção. Estão fazendo uma obra que não lhes mandou fazer. Desonram a Deus por seu espírito faccioso e por suas contendas, e Ele condenará de igual maneira a ambas as classes” – Fund. Educação Cristã, pág. 482.

“Irmãos, não vos lembrais de que a nenhum de vós foi imposta pelo Senhor qualquer responsabilidade de publicar suas preferências políticas em nossas publicações, ou de sobre elas falar na congregação, quando o povo se reúne para ouvir a Palavra do Senhor. Não devemos, como um povo, envolver-nos em questões políticas. Todos fariam bem em dar ouvidos à Palavra de Deus: Não vos prendais a um jugo desigual com os incrédulos em luta política, nem vos vinculeis a eles em suas ligações. Não há terreno seguro em que possam estar e trabalhar juntos. O fiel e o infiel não têm terreno neutro em que possam encontrar-se. Aquele que transgride um dos preceitos dos mandamentos de Deus é transgressor de toda a lei. Mantende secreto o vosso voto. Não acheis ser vosso dever insistir com todo o mundo para fazer como fazeis” – Mens. Escolhidas, vol. 2, pág. 336-337.

“O Senhor quer que Seu povo enterre as questões políticas. Sobre esses assuntos, o silêncio é eloquência. Cristo convida Seus seguidores a chegarem à unidade nos puros princípios evangélicos que são positivamente revelados na Palavra de Deus. Não podemos, com segurança, votar por partidos políticos; pois não sabemos em quem votamos. Não podemos, com segurança, tomar parte em nenhum plano político. Não podemos trabalhar para agradar a homens que irão empregar sua influência para reprimir a liberdade religiosa, e pôr em execução medidas opressivas para levar ou compelir seus semelhantes a observar o domingo como sábado. O primeiro dia da semana não é um dia para ser reverenciado. É um falso sábado, e os membros da família do Senhor não podem ter parte com os homens que o exaltam, e violam a lei de Deus, pisando Seu sábado. O povo de Deus não deve votar para colocar tais homens em cargos oficiais; pois assim fazendo, são participantes nos pecados que eles cometem enquanto investidos desses cargos” – Fund. Educação Cristã, pág. 475.


Porém, em outros momentos, ela parece encorajar o envolvimento de jovens em atividades políticas.

“Querida juventude, qual é o alvo e propósito de vossa vida? Tendes a ambição de educar-vos para poderdes ter nome e posição no mundo? Tendes pensamentos que não ousais exprimir, de poderdes um dia alcançar as alturas da grandeza intelectual; de poderdes assentar-vos em conselhos deliberativos e legislativos, cooperando na elaboração de leis para a nação? Nada há de errado nessas aspirações. Podeis, cada um de vós, estabelecer um alvo. Não vos deveis contentar com realizações mesquinhas. Aspirai à altura, e não vos poupeis trabalhos para alcançá-la” – Fund. Educação Cristã, pág. 82.

“O propósito de Deus para com os filhos que crescem em nossos lares, é mais amplo, mais profundo, mais elevado, do que o tem compreendido a nossa visão restrita. Aqueles em quem Ele viu fidelidade, têm sido, no passado, chamados dentre as mais humildes posições na vida, a fim de testificarem dEle nos mais elevados lugares do mundo. E muitos jovens de hoje, que crescem como Daniel no seu lar judaico, estudando a Palavra e as obras de Deus, e aprendendo as lições do serviço fiel, ainda se levantarão nas assembleias legislativas, nas cortes de justiça, ou nos palácios reais, como testemunhas do Rei dos reis. Multidões serão chamadas para um ministério mais amplo” – Educação, pág. 262.


A Questão Crucial

Pelo que podemos entender, a grande crítica de Ellen White não era contra a Política, em si, mas contra as corrupções envolvendo as "politicagens" dos partidos. E aqui é onde encontramos também um forte argumento contra aqueles que usam exemplos bíblicos como Daniel, Neemias, etc., para defender a aprovação de Deus sobre a participação de Seus filhos na Política.

Nem Daniel, nem Neemias, ou qualquer outro "político" da Bíblia (se é que podemos chamá-los assim, uma vez que esta palavra assume uma expressão bem diferente em nossa cultura sul-americana, especialmente) foram militantes de partidos políticos. Eles estavam a serviço de Deus, diretamente, e não estavam presos à "fidelidade partidária" a qual os políticos de nossa época estão vinculados.

Daniel, por exemplo, vivia conforme sua fé, mesmo que ela se opusesse aos interesses dos poderosos de seu tempo. Os políticos de hoje, muitas vezes, precisam "engolir" suas ideologias pessoais para seguirem a "determinação do partido". A única alternativa que têm é SAIR e TROCAR DE PARTIDO, como aconteceu algumas vezes na História recente de nosso país. Mas como a legislação brasileira não concebe, atualmente, um político "sem partido", mais cedo ou mais tarde, os interesses partidários serão novamente confrontados com os ditames da consciência individual dos seus integrantes. E qual prevalecerá?

Os noticiários estão cheios de exemplos de como a corrupção na política é algo quase que "entranhado" na vida social do nosso país. Exemplos recentes:
1. Candidatos que são ferrenhos inimigos em uma campanha, mas por conveniência$ ideológica$ se tornam "amigos do peito" na campanha seguinte;
2. Partidos de oposição que se bandeiam para a situação, após a promessa de cargo$ e "agrado$";
3. Partidos que, quando estavam na oposição, assumiam uma postura diametralmente oposta àquela que praticam quando conseguiram chegar ao poder, como os recentes e assombrosos escândalos de corrupção e dilapidação do patrimônio público;
4. Partidos que, mesmo inimigos "mortais", se unem quando o objetivo é legislar em causa própria, aumentando o salário de seus parlamentares ou a cota partidária, por exemplo;
5. Políticos que trocam de partido como quem troca de roupa, sempre em busca de ganho$ pe$$oai$;
6. Candidatos que são financiados por grandes grupos empresarias, sindicais, políticos, etc., e que usam seus mandatos apenas para benefício de tais grupos, em detrimento do sofrimento e da miséria daqueles que os colocaram no poder.


E então? Votar ou não votar?

Algumas considerações podem ser tiradas, como resultado das reflexões apresentadas acima:


1. Devemos evitar qualquer contenda que envolva política durante os serviços religiosos da Igreja. Quando nos reunimos para adorar a Deus, nada deve desviar o pensamento desse objetivo primário. Portanto, evite-se a distribuição "santinhos" ou as discussões tolas sobre preferência político-partidária nos horários de culto.

2. Os membros são livres para se candidatarem e/ou votarem em candidatos, mas devem fazer isso com total consciência de que temos "dupla cidadania": uma celestial e outra terrena, e apenas a celestial vai prevalecer depois que tudo acabar. Para um Adventista sincero, os fins não justificam os meios, ao contrário do que Maquiavel defendia em seu livro sobre Política.

3. Na escolha de um candidato, deve-se dar grande importância à sua qualificação de caráter, e não a qual partido ou ideologia político-partidária ele defenda. Este candidato deve ser alguém temperante, cristão, honesto, sincero, comprometido com a liberdade religiosa, e um amigo dos Adventistas do 7º Dia.

4. Se tiver de escolher entre um não-Adventista e um Adventista, escolha o Adventista, se você o conhece e sabe que ele poderá ser um instrumento de Deus (um Daniel?) nas atividades políticas de sua comunidade.
 

Acima de tudo, não faça da política um motivo de brigas com seu irmão, pois isto põe por terra tudo de "bom" que você esteja pretendendo com a sua atividade política. Talvez muitos dos políticos que são idolatrados durante o período da campanha eleitoral, ou mesmo depois dela, não estarão no Céu. Mas teu irmão estará! Por isso, não prejudique sua amizade com um irmão na fé por causa de uma disputa política passageira...

"Temo, pois, que, indo ter convosco, não vos encontre na forma em que vos quero, e que também vós me acheis diferente do que esperáveis, e que haja entre vós contendas, invejas, iras, porfias, detrações, intrigas, orgulho e tumultos" - 2Cor. 12:20.

 
"De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne?" - Tiago 4:1.

 
"Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer. Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo" - 1Cor. 1:10-12.

 
"Porquanto, havendo entre vós ciúmes e contendas, não é assim que sois carnais e andais segundo o homem? Quando, pois, alguém diz: Eu sou de Paulo, e outro: Eu, de Apolo, não é evidente que andais segundo os homens?" - 1Cor. 3:3-4


Vote... com consciência!


Um comentário:

A.K.R disse...

Ótimo artigo! Apesar de estar falando de candidatos adventistas, creio que essas mesmas questões são discutidas em outras denominações onde há candidatos. Sempre surgem dúvidas se cristãos (principalmente evangélicos) deveriam se envolverem em campanha política. Eu particularmente acho que as igrejas devem ser "apolítica", mas os membros dela têm o direito de se candidatarem e se elegerem para cargos políticos. Mas é verdade que o meio político corrompe fácil as pessoas e muitos que entram pensando em transformar a sociedade, transformando-a em uma sociedade mais justa, com menos desigualdade, muitas vezes acabam se "contaminando" ao entrarem na política. Também sempre há a possibilidade de seu nome estar envolvido em escândalos, já que nesse meio não há escrúpulos e os inimigos tramam e armam para cima de pessoas, mentindo e caluniando, deixando assim o nome do político cristão sujo e pior, por causa desses escândalos, toda a igreja (denominação) que o tal político é membro, sofre preconceito e pré-julgamentos. Por isso, acho que um cristão, membro de uma igreja evangélica( seja adventista ou de outra denominação) deve pensar bem e pesar os prós e contras de se candidatarem. Há homens de fé que ao entrarem nesse meio corrupto, deixaram a fé esfriar e os interesses falarem mais alto. E os membros de igrejas, devem pensar bem antes de colocarem um irmão em Cristo num cargo político, porque se ele se envolver em escândalos, o nome da igreja vai ser "apedrejada", porque nessas horas, as pessoas não fazem distinção e rotulam todos os membros. Um cristão pode fazer diferença na política, mas sempre vai correr risco de alguém tramar contra ele para prejudicá-lo e sujar a reputação e sempre vai haver cristãos na política se corrompendo, infelizmente. É um tema delicado esse que abordou, Pr Medeiros, mas necessário tocar no assunto, ignorá-lo não é solução.


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