sexta-feira, março 17, 2017

Envelhecer é um privilégio negado a muitos

Esta semana eu precisei me ausentar do trabalho quase todos os dias... Motivo? Levar minha mãe na Fisioterapia e na consulta com o Ortopedista.

Dona Creusa está com quase 70 anos, e depois de uma vida bastante ativa (adorava costurar e ir aos cultos a cada sábado), ela está há alguns meses dependendo de auxílio (cadeira de rodas ou andador) para se deslocar de um lado para o outro em casa. Tudo começou depois de uma queda e de uma virose (Zyka), que fez com que suas pernas perdessem um pouco a força... segundo o médico, os nervos estão ficando fracos e ela tende a não voltar a andar como antes. Quão bom seria se, nestas horas, os irmãos visitassem aqueles idosos da igreja que não conseguem mais frequentar os cultos como faziam antes!

Meu irmão caçula, Gilton, mora próximo dos meus pais e tem sido um grande auxílio para levá-los a médicos, banco, etc. Morei por 3 anos em outro Estado (até dezembro passado), e não tive como ajudar de forma mais presente... Mas agora faço questão de participar ativamente, pois vejo que os dias passam e em breve, a depender do futuro, ficarão apenas as lembranças dos momentos que passamos juntos. 

O tempo é cruel! Passa para todos, sem esperar... e quando a gente menos se dá conta, aqueles que fizeram parte de nossa vida, partem para o descanso merecido... e apenas as saudades permanecem.

Ontem, passei a tarde no médico, com ela e com minha irmã do meio, Gilvani (já perceberam que nordestino coloca nomes nos filhos seguindo uma "lógica"? rsrsrs). Não almocei, pois a consulta seria às 13h, e era por "ordem de chegada"... Não disse a ela que não tinha almoçado, para não preocupá-la.... Mamãe acha que ainda sou seu filhinho de colo, e ficaria preocupada em saber que eu estava sem comer...

Já passavam das 15h quando fomos atendidos, e eu fui deixá-las em casa. A pobrezinha estava super apertada para ir no banheiro, mas "prendeu" a vontade para não ter que usar o banheiro público, devido à sua dificuldade em andar (ontem ela estava no andador). Quando chegamos, ela correu (modo de falar..rsrs) para o banheiro, e aproveitou para tomar um banho. O calor em Natal ontem estava de rachar, e um bom banho depois de uma tarde de espera e paciência é um verdadeiro presente.

Meu pai já está com a cabeça branquinha

Eu fiquei esperando que ela terminasse o banho para poder pedir sua bênção e voltar pro trabalho (mesmo que no finalzinho do expediente). Enquanto isso, fui para a "área" (no Nordeste é a parte da casa que fica antes da porta de entrada pra sala, normalmente coberta, onde os moradores recebem as visitas em dias mais quentes, ou guardam o carro). Lá fiquei conversando com Seu Osvaldo, meu pai, e ouvindo ele contar dos amigos que conseguiram a aposentadoria.

Meu pai tem 72 anos, é analfabeto (só aprendeu a assinar o nome e "fazer contas"), e hoje vive com uma bolsa de colostomia após ser submetido a uma cirurgia no intestino grosso há cerca de 18 anos. Nunca quis fazer a cirurgia de reversão (e se livrar da bolsa), pois teve medo de não resistir e morrer, como aconteceu com alguns da associação de colostomizados a qual ele faz parte.

Fiquei ali sentado, de frente para Seu Osvaldo, e o ouvindo narrar as aventuras nas agências do INSS para ajudar outros que, como ele, não tinham condições de contratar um Advogado para darem entrada na aposentadoria... papai fica todo orgulhoso por saber que um analfabeto como ele, de fala engraçada (troca o C pelo T), andando de ônibus, ajudou a aposentar mais de 20 velhinhos. E fica ainda mais feliz por nunca ter aceitado receber "um tostão" por este trabalho.

Ali estávamos os dois, sentados, em um monólogo... porque eu não conseguia dizer mais que uma ou outra palavra... disfarcei um nó na garganta ao olhar para ele e ver o peso dos anos em seu cabelo, seu rosto, seus olhos... não pude evitar o pensamento de que uma dia poderei ser surpreendido com a notícia de que ele "descansou"...

Valorize seus pais, avós, bisavós

Sinto do fundo do coração uma tristeza imensa por nunca ter levado minhas filhas para conhecerem seus bisavós maternos (os paternos faleceram quando eu ainda era criança). Morávamos há uns 300 Km de distância (em Mossoró/RN) e eu sempre envolvido com as atividades missionárias, dos Desbravadores, ancionato, vigílias, caminhadas, pernoites, camporis, evangelismos, cultos, programas, programas, programas... e nunca sobrava tempo para viajar com a família e passar um final de semana com o casal que marcou profundamente minha infância (além de meus avós, eles eram meus padrinhos)... Sinto um remorso muito grande por ter dado mais prioridade a outras coisas e não a eles, que tanto me amaram e morreram sem conhecer as bisnetas.

Hoje, faço questão que minhas meninas passem algum tempo frequentemente com os avós. Um dia elas lembrarão com saudade desses encontros... assim como eu hoje lembro também.

Se você leu este desabafo até aqui, talvez estejamos os dois com os olhos marejados de lágrimas... eu falando dos meus pais e avós... e você lembrando dos seus... 

Ou talvez você seja um avô ou uma avó (ou mesmo um pai ou mãe) que sente que sua família (especialmente netos e filhos) não ligam mais para você... sei o que é isso... às vezes me sinto assim também, quando vejo que minhas filhas crescem e aquele espaço que eu ocupava antes, hoje é ocupado pelos amigos (namorado, no caso de Gabi) e redes sociais... sinto falta... mas é o ciclo da vida.

Aprendi nesta semana que devo valorizar cada dia mais aqueles que um dia se dedicaram tanto por mim.. ficaram noites em claro, cuidaram de mim quando eu estava com febre e com a fralda cheia de cocô... e a gente sabe como cocô de bebê cheira mal...rsrsr

Meu pai e minha mãe são um tesouro que eu devo valorizar, apesar dos seus defeitos e falhas... são MEUS pais... jamais terei outros.

Não deixe para depois

Aproveite, se você ainda pode, e passe este próximo final de semana coladinho no seu pai e na sua mãe (se você tiver a graça de tê-los juntos ainda). Não espere chegar maio ou agosto, dezembro ou janeiro para visitá-los... eles querem seu abraço hoje.

Encerro aqui... 
Preciso ligar para ouvir a voz da minha mãe e do meu pai...

"Ouça o seu pai, que o gerou; não despreze sua mãe quando ela envelhecer" - Prov. 23:22

"Os filhos dos filhos são uma coroa para os idosos, e os pais são o orgulho dos seus filhos" - Prov. 17:6

"Honra a teu pai e a tua mãe (que é o primeiro mandamento com promessa), para que te vá bem, e sejas de longa vida sobre a terra" - Efés. 6:2-3.

4 comentários:

A.K.Renovatto disse...

Pr Medeiros, gostei muito de seu texto em forma de um desabafo! Passamos o dia na correria, mas precisamos de um tempo para colocar os sentimentos para fora. Os dias passam para todos e a verdade é que uma hora nos damos conta que muitos dos que nos são queridos, já estão com certa idade, com enfermidades...Sei como é isso! Você está certo em querer aproximar as filhas dos avós, dar mais atenção a eles. Fiquei emocionado ao ler esse desabafo, me veio lembranças de pessoas queridas que já partiram para um descanso. Que Deus possa abençoar seus pais e sua família de modo especial.

Fernando disse...

Muito importante Pr Gilson seu desabafo,perdi minha mãe aos 12 anos ,mas sempre ia com ela a igreja,sempre católica e depois pasou a ser evangélica.Quanta saudade de uma senhora que quando católica guardava o domingo(isso me ajudou a respeitar um dia para o Senhor-hoje o sábado).
Mas o avõs(avõ e bisa) dos meus filhos mora no Rio e faço questão de levá-los a cada 2 anos para vÊ-los,me programando para comprar as passagens que não sai barato,mesmo com desconto,Belém ao RJ é um pouco distante,rsrrsrs.Obrigado pela lembrança de olharmos por essas pessoas que tanto nos amam!
sds,
Fernando SOuza

Gilson Medeiros disse...

Prezado A.K.Renovatto, obrigado pelo comentário.

Fico feliz em saber que meu sincero texto encontrou outros corações sinceros como o seu.

Um abraço
Gilson.

Gilson Medeiros disse...

Prezado Fernando, agradeço a gentileza do comentário.

Nossos pais e avós realmente são uma bênção do Senhor em nossas vidas. Que bom que você tem lembranças tão boas da sua mãezinha... Maranata. E parabéns pelo empenho em manter seus filhos em contato com os bisavós deles.

Um abraço
Gilson.

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