sábado, novembro 30, 2013

O cristão e a hipocrisia

Partindo do conselho bíblico de que devemos “julgar todas as coisas e reter o que [for] bom” (1Tess. 5:20-21), gosto de ler alguns autores de fora dos círculos Adventistas (por exemplo: Max Lucado, Fábio de Melo, Augusto Cury, Silas Malafaia, etc.), pois eventualmente encontro reflexões que me ajudam a fortalecer a fé e a convicção na Palavra.
 

No momento estou lendo “Os segredos do Pai Nosso”, de Augusto Cury, e uma citação no livro me chamou a atenção, pois me identifiquei com ela:
 

Tenho encontrado líderes católicos, protestantes, budistas, islamitas que sofrem calados, nunca velam seus conflitos, temendo serem julgados pelos que os rodeiam. Suas lágrimas nunca conquistaram o teatro do seu rosto, com medo das críticas. Quando não existe tolerância e afetividade, o melhor dos ambientes, mesmo religioso, é tirânico.
Muitos dos seguidores têm uma falsa imagem dos seus líderes, considerando-os infalíveis, imunes às misérias psíquicas dos mortais e aos transtornos dos ‘comuns’. Mas quem não atravessa os vales da ansiedade patológica em alguns momentos da vida? Quem não sofre alguns transtornos emocionais? Quem não é subjugado por algumas características doentias da personalidade?

 

Mas à frente, na mesma página 65 do livro, Cury também desabafa:
 

A religiosidade que almeja produzir super-homens, pessoas infalíveis, rígidas, juízes dos outros, que não promove o autodiálogo e o diálogo interpessoal, torna-se uma fonte de doenças psíquicas”.
 

É curioso observar que muitos dos problemas que afligem a IASD são experimentados por outras denominações cristãs, o que mostra que tem existido um certo “colapso” nos princípios que nortearam o nascimento desta “religião” – o Cristianismo. Vemos que Jesus pregou e ensinou acerca de temas que hoje não passam de belas teorias para serem explanadas em eloquentes e “poderosos” sermões de sábado de manhã. Assuntos como “perdão”, “reconciliação”, “graça”, “justiça divina”, “salvação”, “pecado”, entre tantos outros, são muito mal compreendidos, pois a teoria não está se harmonizando com a prática em nossas vidas, e as pessoas percebem isso, tanto dentro quanto fora dos arraiais proselitistas das igrejas.
 

Vejamos o exemplo da disciplina... Ela, em teoria, existe para recuperar o pecador que cometeu alguma falta, e ajudá-lo a se aproximar de Deus novamente. No Manual da IASD lemos o seguinte acerca da disciplina (pág. 58):
 

“Ao tratar com membros que cometem falhas, o povo de Deus deve seguir estritamente as instruções dadas pelo Salvador no décimo oitavo capítulo de Mateus. Os seres humanos são propriedade de Cristo, resgatados por preço infinito, e estão vinculados a Ele pelo amor que Ele e o Pai têm manifestado. Que cuidado devemos por isso exercer em nosso relacionamento! O homem não tem o direito de suspeitar mal de seu semelhante. Os membros da igreja não têm o direito de seguir seus próprios impulsos e inclinações no trato com irmãos que cometeram falhas. Não devem nem mesmo manifestar qualquer preconceito em relação a eles, porque assim fazendo implantam no espírito de outros o fermento do mal. [...] ‘Se teu irmão pecar contra ti’, disse Cristo, ‘vai e repreende-o entre ti e ele só’ (Mt 18:15). Não se deve contar a outros o caso de um irmão. Confia-se o caso a uma pessoa, a outra e mais outra; e o mal continua crescendo até que toda a igreja vem a sofrer. O correto é resolver o caso ‘entre ti e ele só’. Esse é o plano divino” (Testemunhos Para a Igreja, v. 7, p. 260)”.
 
Agora me responda: “É assim que é feito?”.
 

Quantas vezes já não presenciei o “massacre” de pessoas que caíram em pecado e são cruelmente “destroçadas” por aqueles que um dia as chamaram de “irmão” ou “irmã”?! Nós, como cristãos, temos uma enorme dificuldade em lidar com membros que caíram... ficamos ávidos por saber os detalhes da queda, e espalhar os boatos.
 

O que percebemos é o desejo de usar a disciplina como forma de expor, constranger, punir e massacrar o membro faltoso.
 

A Bíblia fala sobre este tipo de pessoa, que “adora” ver o sangue dos irmãos sendo derramado...
 

"Quem, SENHOR, habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? (...) o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho" (Salmo 15:1-3).
"O que retém o ódio é de lábios falsos, e o que difama é insensato" (Prov. 10:18).
"O homem perverso espalha contendas, e o difamador separa os maiores amigos" (Prov. 16:28).
"Sentas-te para falar contra teu irmão e difamas o filho de tua mãe" (Salmo 50:20).
"Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes, estejam prontos para toda boa obra, não difamem a ninguém; nem sejam altercadores, mas cordatos, dando provas de toda cortesia, para com todos os homens" (Tito 3:1-2).
"O mexeriqueiro descobre o segredo, mas o fiel de espírito o encobre" (Prov. 11:13; 20:19).
"Pleiteia a tua causa diretamente com o teu próximo e não descubras o segredo de outrem; para que não te vitupere aquele que te ouvir, e não se te apegue a tua infâmia" (Prov. 25:9-10).
 

Como mencionou o Augusto Cury, especialmente para os líderes é muito doloroso passar por este processo de recriminação por um erro cometido. Por causa disso, nossos líderes acabam se tornando pessoas frustradas, isoladas, solitárias em sua psiquê perturbada, com medo de errar, tentando aparentar uma “perfeição” que não existe. E isso se refletirá em um comportamento de conflitos interiores, tornando-os legalistas, fanáticos, neuróticos (por que não dizer?!), sempre com medo de que descubram algum “podre” em sua vida e assim eles sejam “desmascarados” perante todos. Para fugir a isso, alguns líderes religiosos passam a se comportar como verdadeiros tiranos, massacrando o rebanho com normas e exigências duras, e sendo implacáveis com aqueles que caem no pecado, tudo isso na tentativa de desviarem o foco das atenções para seus próprios conflitos pessoais.
 

Enquanto vemos Jesus “absolvendo” a mulher adúltera, vemos os líderes e religiosos da época prontos para apedrejá-la, hipócrita e implacavelmente...
Enquanto vemos Jesus aceitando o gesto de gratidão desta mesma mulher, ao derramar perfume em Seus pés, vemos a hipocrisia de outros que condenavam a atitude de Jesus, sem levarem em conta que eles próprios foram os responsáveis pela vida de prostituição daquela pobre mulher...
 

Mesmo entre os santos discípulos do passado, percebemos o aflorar do sentimento humano de “punição” e “dureza” no trato dos que erram. O caso de Paulo e Barnabé é um clássico: enquanto o primeiro foi implacável com o vacilo do jovem João Marcos, Barnabé preferiu estender a mão e resgatar o faltoso. Resultado? Um belíssimo Evangelho escrito por aquele que teria sido excluído da equipe evangelística, se dependesse de Paulo...
 

Assim somos nós: implacáveis, tiranos, crueis com os “irmãos” que cometem faltas no seio da igreja. Pregamos muito bem sobre o famoso 70x7, mas no nosso cotidiano essa conta se resume a 0x1... e olhe lá!
 

Às vezes me pergunto... o que teria sido de grandes personagens bíblicos, se tivessem que enfrentar os “irmãos” de nossa época?!
 

Abraão (o mentiroso) seria o Pai da Fé?
Moisés (o explosivo) seria o homem mais manso da Terra?
Raabe (a prostituta mentirosa) e Sansão (o imoral) seriam mencionados na galeria dos “herois” da Fé?
Davi (o adúltero homicida) seria o homem “segundo o coração de Deus”?
 

Pois é... a religião tem sufocado a fé. Somos hoje muito mais “religiosos” do que “cristãos”, na essência mais profunda desta palavra. Já não podemos mais nos considerar “seguidores do Cristo”, pois Ele Se envergonharia da maneira grotesca com que nos tratamos diariamente.
 

É por estas e outras que tem crescido tão fortemente a penetração do ateismo, deismo, relativismo... e outros “ismos” da sociedade moderna, pois as pessoas já não veem mais o Evangelho puro de Cristo sendo revelado na vida daqueles que O professam seguir.
 

Quantos, assim como Gandhi, não devem estar dizendo: “Eu me tornaria um cristão, se não fossem os cristãos”?!
 

Vale a reflexão...

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